Este é um texto que escrevi há muito tempo ("pra mais de ano"), mas permanece atual... O objetivo é nos fazer refletir...
Igreja que acolhe
Certo dia um amigo veio me falar,
quando conversávamos sobre a Jornada Mundial da Juventude, o motivo pelo qual
não permaneceu na Igreja Católica, nem mesmo até a Crisma: não se sentiu
acolhido pela Igreja. A imagem que muita gente tem é da Igreja conservadora,
firme em suas regras e que não tem se preocupado em ir até os necessitados, e
mesmo quando estes vão em busca de auxílio, nem sempre são bem recebidos.
A Igreja de hoje precisa ser
acolhedora, não somente se voltar para quem já está na comunidade, mas acolher
também quem fica à espreita (seja para interferir, seja por curiosidade). Essas
pessoas esperam apenas um “empurrãozinho”, mesmo sem saber o porquê. Quantos
escribas e fariseus seguiam Jesus a fim de conseguir provas das quais pudessem
acusá-lo? E quantos destes não se converteram pelo caminho? Não podemos temer
aqueles que nos criticam. Pelo contrário, se nas críticas houver fundamento (e
o Espírito Santo nos auxilia neste discernimento), porque não usá-las para
crescer? Não podemos também temer o diferente, ou discriminar. Todos que somos
marcados pelo sinal do Batismo, carregamos em nós algo de bom para ofertar.
Acolhamos uns aos outros! Afinal, o Reino dos Céus é para todos! E não para
poucos!
E se o que nos incomoda é a quantidade
de defeitos que apresentamos – seja por nosso passado ou até mesmo pelo
presente que vivemos – devemos nos lembrar do seguinte: “Deus não convive com o
pecado, mas acolhe o pecador”. Devemos obedecer antes a Deus que aos homens;
devemos imitar as atitudes de Deus feito homem, em Jesus Cristo.
A passagem da mulher flagrada em
adultério mostra bem essa virtude do Redentor, de acolher quem precisa. Naquela
época, a mulher era totalmente desvalorizada, não tinha representação alguma na
sociedade. Jesus poderia ter aprovado o apedrejamento da pecadora, conforme a
Lei de Moisés, ou melhor, dos homens. No entanto, o Mestre repassou aos
fariseus o poder de julgar, desde que se lembrassem do próprio passado. “Aquele
que nunca houver pecado, atire a primeira pedra”. Quando todos se retiraram, um
a um, e restou somente a mulher Jesus aproximou-se dela e lhe disse: “Mulher,
onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou?”. Ao que a mulher
respondeu: “Ninguém, Senhor”. Neste momento, com toda sua Misericórdia, o
Mestre a acolhe, descarta seu passado e lhe dá uma nova chance, dizendo: “Nem
eu te condeno. Vai e não tornes a pecar”.
Igualmente linda e rica é a
passagem da Samaritana. Naquele tempo, Judeus e Samaritanos não se davam,
portanto o sentimento entre eles era de total inimizade. Jesus, no entanto,
deixa de lado os preconceitos impostos por sua cultura e, aproximando-se dela,
pede um pouco de água. A samaritana se assusta com o pedido do pobre de Nazaré
e compreende menos ainda o porquê dele pedir, além de água, sua atenção. Jesus
responde dizendo: “Se conheces o dom de Deus e quem lhe pede água, tu lhe
pedirias e ele te daria da água viva”. No decorrer da conversa, a mulher acaba
por se deixar acolher pelo coração de Jesus, que é rico em misericórdia. Vale lembrar
que ter “cinco maridos” como a mulher samaritana é não ter estabilidade,
persistir em erros (“este homem com quem você está hoje não é seu marido”).
Em todo o Evangelho percebemos
que Jesus, para transformar as pessoas, para realizar curas e milagres,
primeiramente, acolhe cada um, e, se necessário, faz-se menor do que a pessoa
para acolhê-la. Para isso é preciso, antes de tudo, estarmos com os olhos fixos
nAquele que nos uniu e conferiu esta missão: “Ide por todo mundo e anunciai o
Evangelho a toda criatura!”. Evangelizar não significa apenas belas pregações,
perfeita oratória. A evangelização mais eficiente se dá pelo testemunho.
Portanto, como Igreja, como “reflexo de Cristo”, que somos chamados a ser,
tenhamos a mesma disponibilidade e sensibilidade de Nosso Senhor para acolher
sem discriminação, pré-conceitos ou julgamentos. Que sejamos o próprio Cristo
uns para com os outros. AMÉM.